Ipsis Litteris

Revisão de textos



quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

De livrilmes e filmivros

Adoro filmes, mas livros, eu simplesmente os amo. A verdade é que cada um deles tem a sua linguagem, ímpar, incomparável e inconfundível.

Livro é o exercício da criatividade, da imaginação (do autor e muito mais do leitor). Quando leio, viajo. E ja fui aos lugares mais insólitos que possa haver, como a Molvânia e o Phaic Tan (conhece? Vá lá, então!), em mundos fictícios e, por vezes, factuais (como é tênue a fronteira entre real e imaginação!). Certa vez fui ao inferno, acompanhado de Virgílio. Já fui até a mim mesmo, mas eu não estava em casa na época…

Quantos seres já conheci! Uma miríade, eu diria. São gentes, são bichos, são criaturas obstinadamente diversas, que moram em minhas estantes e vagueiam pelas minhas ideias. E quantos ofícios já aprendi! Já fui cavaleiro (pode acreditar: estive sentado ao lado de Arthur em sua famígera távola redonda), poeta, pirata, médico, cientista, astronauta, dançarina, cortesã, detetive, mocinho, bandido e por aí vai.

A leitura proporciona um tal grau de intimidade com o mundo daquelas palavras, que elas e ele passam a ser meus, em mim – segundo Sartre, “a leitura é criação dirigida. […] o objeto literário não tem outra substância a não ser a subjetividade do leitor” (SARTRE, O que é literatura?, 1989, p. 38).

O filme, ao contrário, não consegue suspender a distância entre o espectador e a tela, por maior que seja o ecrã. A história já está pronta, basta servir-se. Se o cinema é mágico, o é devido a recursos tecnológicos, como as dimensões da tela e a altura do som – já reparou que balançamos o corpo, numa tentativa de dança, quando uma música toca muito alto à nossa volta, ainda que não gostemos dessa música? É um efeito quase involuntário.

Mas o trunfo mesmo do filme – e do cinema, por extensão, – são os efeitos especiais. Esse conjunto de sensações visuais e auditivas dá ensejo aos desejos de uma equipe de criação (não aos meus) e possibilitam existência a lugares, seres e fatos que, até então, pulsavam latentes em mil cabeças criativas.

E quando me sento à frente de uma tela para assitir a um filme, quando disponibilizo parte de meu tempo e do meu mundo à concretização do projeto de um Peter Jackson, um Tarantino, um Kubrick ou um Pasolini, sentam-se comigo minha Erlebnis e a liberdade de aceitar tal projeto – e lhe dar continuidade – ou recusá-lo (Sarte outra vez). Na tela, projeta-se não somente a película. Há ali impressas expectativas em relação à produção que ora se confirmam, ora se refutam.

Essa experiência é mais fortemente sentida quando o projeto cinematográfico tem como base um livro ou a vida de uma personalidade. Cobra-se muito uma transposição fidedigna, o que nem sempre é possível, pois, como dito anteriormente, trabalham-se linguagens diferentes. Acrescentem-se a intenção da equipe de criação e a proposta com que é concebida a produção, além, claro, das ditas expectativas.

Por outro lado, quando leio, sou eu o ator, o diretor, a equipe de som, de edição, de efeitos especiais (e quem/o que mais for nercessário) de um filme que se passa em minha cabeça. Sou eu quem define a emoção dada a uma fala, a intensidade das cores do cenário, a firmeza dos traços do personnage. Entretanto nem sempre a minha criação coincide com a de Peter Jackson e cia. – ora a minha me parece melhor, ora a deles.

Recentemente tenho visitado e revisitado insistentemente a Terra Média. Tolkien tem-me sido um vício e uma ambição desde o primeiro momento em que fomos apresentados. A capacidade inventiva desse britânico nascido na África do Sul é-me peremptoriamente fascinante.

Mas devo confessar que alguns – e são poucos – episódios da saga do anel em O Senho dos Anéis ficaram muito mais bem representados cinematograficamente do que no livro ou mesmo em minha própria produção, como a investida dos Espectros do Anel à Comitiva de Anel no Topo dos Ventos. Agora, certamente eu também escalaria Ian McKellen e Kate Blanchet para os papéis de Gandalf e Galadriel, respectivamente (espero que também sejam eles a interpretar esses personagens no vindouro O Hobbit).

Acredito, portanto, que filme e livro não sejam substituíveis entre si, visto serem linguagens distintas e mobilizarem estratégias de apreensão próprias, mas possam, sim, ser complementares e promover profícuas intertextualidades.

2 comentários:

RBK disse...

O discurso,falado ou escrito, engendra ressonâncias mais prolíficas no psiquismo. Orgulho-me de ter lido Tolkien quando ainda era um rapazola, pelos idos dos anos oitenta. Há sempre uma redução em relação à obra original, talvez em função da limitação do tempo, talvez pela diacronia da narrativa do roteiro. A imaginação, ao contrário, é plurívoca e multidimensional. Ela é, ao mesmo tempo, diacrônica e sincrônica e suas camadas de significação, inesgotáveis.
Mas há um valor intrínseco, irreproduzível e quase infinito num filme: o valor do instante. Cenas como a de "Casablanca" ou a performance de Gene Kelly, em "Singing in the rain" são irrepetíveis.
Há, não obstante, algo comum entre todas as narrativas, incluindo os mitos: eles suscitam uma evasão do tempo cronológico, que pode ser uma vivência tão imppactante e terapêutica quanto as maiores experiências percebidas e mais potentes do que os "pharmakoi".
Mas, para estabelecer esta conexão, recomendo que leia "O Mito de Eterno Retorno" de Mircea Eliade.
Um abraço.

Victor disse...

Obrigado, professor, pelas visitas ao blog e muito mais pelos comentários sempre muito enriquecedores. Também pudera! É invejável (e daquela inveja boa...) essa bagagem intelectual e cultural que traz consigo (o Lattes não mente!) e que me é aquele horizonte obstinadamente perseguido, mas incessantemente fugidio. Agradeço também a indicação de leitura. O Lepismodes inquilinus que habita em mim já está folgadamente esparramado sobre o texto de Mircea Eliade!