Ipsis Litteris

Revisão de textos



sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Música, sexo e tempestade

A banda estado-unidense 30 Seconds to Mars ainda está com o pé na estrada divulgando seu mais recente trabalho, This is war (2009), e fazendo muito show. Mas show mesmo está o videoclipe da 6ª faixa do álbum, Hurricane. Inicialmente, a faixa foi engendrada em parceria com o rapper também estado-unidense Kanye West, mas questões jurídicas procastinaram a divulgação dessa versão para 2010, quando do lançamento da edição deluxe do álbum.

No videoclipe de Hurricane também não aparecem os vocais do rapper, e óbices outros dificultam sua divulgação na televisão, especialmente. Não é por menos: cenas violentas de sadomasoquismo dão lardo a uma sequência quase surreal de perseguição e fuga.

À parte toda a polêmica, o videoclipe, um thriller de cerca de 13 minutos, foi concebido como um longa-metragem: no início, apresenta-se o nome da produtora (Sisyphus), do diretor (Bartholomew Cubbins, que, na realidade, é pseudonimo de Jared Leto, o vocalista da banda) e dos atores, os integrantes da 30 Seconds to Mars – Tomo Milicevic e os irmãos Leto.

Os nomes podem revelar detalhes do que está por vir. Na mitologia greco-romana, Sisifo é sinônimo de tarefa contínua, em eterno recomeço: em uma das versões do mito, Sísifo é condenado por Zeus a empurrar, eternamente, para o alto de uma montanha, uma enorme pedra, que, uma vez lá em cima, tornava a rolar para baixo, reiniciando o trabalho do condenado.

Bartholomew Cubbins, por sua vez, é personagem de dois livros infantis da autoria de Dr. Seuss. Em um deles, The 500 Hats of Bartholomew Cubbins (1938), Bartholomew, um garoto pobre dos tempos feudais, ao tirar o chapéu, em reverência ao rei de Didd, que à sua frente passava, é surpreendido por outro chapéu, mais bonito que o primeiro, que misteriosamente aparece em sua cabeça. Outros 498 chapéus aparecem, um a um, da mesma forma.

Ambos os personagens, Sísifo e Bartholomew, reforçam a ideia cíclica e contínua da busca/fuga do prazer erótico apresentada no curta-metragem em pauta, que se divide em três partes. Segue-se uma síntese:

Chapter 1 – Birth marca uma tempestade noturna em formação nos céus de Manhattan e instaura o desafio de cada personagem, ao som de Escape, a 1ª faixa do álbum.

Chapter 2 – Life desenvolve os temas relativos ao sadomasoquismo e também alguns elementos enigmáticos, como a chave atada a uma fita vermelha. Símbolos tatuados na pele ganham dimensões transdérmicas. Ouve-se outra faixa do álbum, a 2ª, Night of the Hunter.

Chapter 3 – Death põe fim às perseguições, mas não resolve os enigmas apresentados, o que, do ponto de vista discursivo, deixa a produção mais instigante, possibilitando diversas leituras e leituras diversas. Vozes femininas em francês e espanhol corroboram a atmosfera erótica.

Ainda que o título da música sugira, nenhum furacão literalmente aparece no videoclipe, mas faz referência à turbulência sexual-emocional em que os personagens se envolvem.

O polêmico videoclipe (e sua versão mais “light”) pode ser conferido no site oficial da banda: http://bit.ly/dxsQu3.

Jared Leto, além de vocalista da 30 Seconds to Mars, é ator(http://imdb.to/h9gQ4). Entre as produções cinematográficas  em que atuou estão Garota, Interrompida (1999), Clube da Luta (1999), Réquiem para um Sonho (2000) e O Quarto do Pânico (2002).

sábado, 1 de janeiro de 2011

Haicai no Réveillon

Para começar o ano, um singelo haicai que escrevi em 27/07/2000, há muito esquecido na poeira do tempo.

 

Fim da primavera

Brisa e luz e cantos.

Vai-se, então, meu grand’amor.

Finda a primavera.

 

A título de informação, haicai, ou haikai, é uma forma de poesia japonesa do século 16 composta de três versos – o primeiro e o terceiro contam cinco sílabas poéticas, e o segundo, sete –, cujo tema geralmente é a natureza (ou as estações do ano).

Feliz ano-novo!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

[sem título]

“O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.”

Carlos Drummond de Andrade

 

Olha, Carlos! Olha! Vê a mesa em que, de fato, nos conhecemos. E não é sem uma pequena comoção que eu a olho e meus olhos se querem encher duma fremente tempestade.

Olho-a – e me é inevitável – e alço as lembranças do dia que estudava e tu, ao passares, entrastes, definitivamente, onde – não – devias. Relembro três, sete vezes todos os detalhes e creio que, naquele instante, aquela mesa ter-se-ia tornado juíza do nosso encontro. Não apenas, mas muito mais: permutamos nossa existência, ela e eu.

Olho-a. Sua matéria rude, os ferros enferrujados, exibem o grotesco de artistas malfadados, intalentosos. Ela, suporte grosseiro de braços e nádegas, palco d’amizades e namoros, festas e contendas. Contudo, ela, de dois bancos, dois longos bancos quietos, contemplativos, acompanhada. E, ainda, ela, marco e profeta do nosso encontro, meu e teu.

Olho-a. E nos meus tímpanos cala-se o silvo de Éolo. O pássaro álgido gralha um sol estático. E estou só. Eu, tão móvel, conhecido das gentes. Eu, limpo e sadio, de face e palavra tão agradáveis. Eu, amante e apaixonado. Eu, conhecedor de tanto e mais sábio do que uma… uma mesa de concreto.

Olho-a e a vejo, agora, caída. Há tempos, e ninguém a quis erguer. Restaram-lhe os bancos, que, quietos, a contemplam. Impassivos, talvez choram.

Olho-a caída e sei que também caí. Tombei na vida, tombei no amor. E me escandalizo: como posso ter eu semelhante termo de um concreto, frio, rijo, imóvel? Eu, que tanto corri, tanto amei, tanto sofri. Destino ignóbil para quem, de si, pensava muito ser.

Olho-a e ouço, sozinho que estou, um riso sardônico a me atravessar a espinha. Por uma fera, o fio da vida era uma tenra rosa a despetalar.

Olha, Carlos! Olha! Vê a mesa, nossa mesa tombada! Pois a vida não me quis um coração em pétalas. Colocou-me, porém, uma pedra a no peito pulsar.

Olha, Carlos! Olha! Que o coração que em mim batia é o mesmo que ora vês tombado entre dois bancos, dois longos bancos, quietos e contemplativos.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Era uma vez…

Contos de fada. Quem nunca ouviu ou contou um deles, mesmo que pelas metades? Quantas histórias, quantas versões! Herdeiros da narrativa oral, muito se discute sua natureza pedagógica e moral, visto que algumas versões de contos de fadas mais conhecidos apresentam, e. g., cenas de adultério, incesto, canibalismo e morte hedionda.

Sheldon Cashdan, em Os 7 pecados capitais nos contos de fadas: como os contos de fadas influenciam nossas vidas (2000), aponta: “é por isso que muitos dos primeiros contos de fada incluíam exibicionismo, estupro e voyeurismo. Em uma das versões de Chapeuzinho Vermelho, a heroína faz um striptease para o lobo, antes de pular na cama com ele. Numa das primeiras interpretações de A Bela Adormecida, o príncipe abusa da princesa em seu sono e depois parte, deixando-a grávida”.

E dentre as diversas versões de Chapeuzinho Vermelho, existe uma, exótica e moderníssima, que muito me apraz. Na verdade, trata-se de uma música: composição de Dero, Crap e Flux, integrantes da banda alemã Oomph!, Wer schön sein will muss leiden conduz o leitor/ouvinte diretamente à cena em que Chapeuzinho Vermelho (Rotkäppchen), diante da vovó (Großmutter) transfigurada, questiona-lhe certos atributos físicos.

Com o advento de modernos procedimentos estéticos de efeito praticamente instantâneo – cirurgia plástica, toxina botulínica, lipoaspiração, bioplastia, implante de silicone, alisamento capilar etc. etc. – a preços módicos e a vulgarização do corpo fit como modelo de saúde, não faz mais sentido a tradicional figura da nonna gorduchinha e de cabelos brancos enrolada num avental preparando docinhos para o lanche dos netos pentelhos ou esticada na espreguiçadeira diante da TV assistindo ao Baú da Felicidade.

Aliás, a velhice não existe mais, nem mesmo a inatividade senil. Hoje, fala-se em melhor idade, mais uma fatia da sociedade em que se aplicarem as financeiras, as indústrias do entretenimento, as agências de turismo. Laboratórios farmacêuticos e drogarias é que se devem estar rebolando para não perder uma parcela considerável de lucro.

Em breve, até Papai Noel vai aparecer enxuto e de barba aparada velejando os sete mares e jogando bocha ou golfe, se não quiser ser imortalizado como somatótipo propenso a infarto, dores reumáticas, mal de Alzheimer e uma série de outros males relacionados a peso e a idade. Sem contar questões de proteção aos animais que pesem positivamente para o lado das renas…

Segue, então, letra e tradução da música

Warum hast Du so große Augen | por que tens olhos tão grandes?
Warum hast Du so straffe Haut | por que tens pele tão esticada?
Warum hast Du so große Brüste | por que tens seios tão grandes?
Warum bist Du so gut gebaut | por que estás em tão boa forma?

Großmutter, Großmutter | vovó, vovó,
warum bist Du noch so jung | por que és ainda tão jovem?

Wer schön sein will muss leiden, mein Kind | quem quer ser jovem deve sofrer, minha criança
Die Welt wird Dich beneiden, mein Kind | o mundo vai te invejar, minha criança
Weißt du nicht, wer seine Seele an die Hölle verkauft | não sabias que quem vende sua alma para o inferno
wird immer jung sein, schön und schlank mit flachem Bauch | será sempre jovem, belo, e magro com barriga tanquinho?
und ich weiß, dass willst Du auch | e eu sei que você também quer

Warum hast Du so schlanke Beine | por que tens pernas esguias?
Warum hast Du so volles Haar | por que tens cabelos cheios?
Warum hast Du so dicke Lippen | por que tens lábios grossos?
Warum bist Du so sonderbar | por que és tão extravagante?

Hör mir zu | escuta-me

Wer schön sein will muss so viel Schmerz ertragen | quem quer ser bonito deve suportar muita dor
drum schau mir bitte nicht ins Herz, mein Kind | por favor, não me olhes no coração, minha criança
Wer schön sein will muss viele Wunden haben | quem quer ser bonito deve ter muitas feridas
drum schau mir bitte nicht ins Herz | por favor, não me olhes no coração

Weißt du nicht, wer seinen Körper in der Hölle bestellt | não saber que quem encomenda seu corpo no inferno
bleibt immer jung, hat viel Erfolg und schwimmt im Geld | fica sempre jovem, tem muita sorte e nada em dinheiro
und das ist es doch was zählt | e o que importa mesmo é isso

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Quando Chico Buarque e Rammstein se encontraram

Comecei a curtir Rammstein muito antes de começar a aprender alemão. Na verdade, o que mais me motivou a procurar um curso de língua alemã foi justamente esse contato com a língua de Brecht, Kafka, Goethe. Mesmo gostando muito da banda, na terça-feira passada (30/11), abri mão da oportunidade de assistir à segunda apresentação dos caras aqui no Brasil, a turnê de Liebe ist für alle da (2009), não pelo preço do ingresso (consideráveis R$ 200 pelo mais barato!), mas por uma espécie de oclofobia (tenho mesmo é medo de ser pisoteado, devido à minha altura…!).

Mas me fartei de escutar o LIFAD, o mais recente álbum da banda. E futricando pela net, descobri que a quarta faixa desse álbum, Haifisch, intertextualiza com uma das canções do musical Die Dreigroschenoper (1928), Die Moritat von Mackie Messer, o que, imediatamente, me lembrou Chico Buarque. Chico Buarque? Sim, o bom e velho Chico: a primeira e a última canções da Ópera do Malandro, de 1979, são uma versão em português da canção em alemão.

Die Dreigroschenoper é um musical composto pelos alemães Bertolt Brecht, poeta, diretor e dramaturgo, e Kurt Weill, compositor. Em tradução livre para o português, o título traduz-se algo como A Ópera de Três Vinténs, “planejada de forma tão pomposa, como só um mendigo poderia sonhar, e porque ela deveria ser tão barata, que até os mendigos possam pagar”, numa clara crítica ao mundo capitalismo. Inspirada na ópera de balada de John Gay The Beggar’s Opera (1728), Die Dreigroschenoper narra o desfecho trágico de um notório criminoso – MacHeath, popularmente conhecido como Macki Messer – da Londres vitoriana, cujos atos se emaranham com as atividades ilícitas da polícia e de banqueiros. Há adaptações para o cinema e, mais recententemente, para a televisão (2004).

A canção de abertura do musical de Bertolt e Weill, Die Moritat von Mackie Messer, fez estrondoso sucesso e já rendeu mais de 30 versões (e outras tantas referências), desde a primeira execução da ópera, entre elas a de Chico Buarque, para o musical Ópera do Malandro – posteriormente também ganhou adaptação para o cinema (1985), que narra a história de Max Overseas e seu envolvimento com atividades ilícitas.

Haifisch não é exatamente uma nova versão de Die Moritat, mas sugere intertextualidades. O título traduz-se por tubarão em português, peixe com o qual MacHeath é comparado – enquanto o tubarão mostra os dentes (Zähne) na cara, a faca (Messer) de MacHeath ninguém vê:

Und der Haifisch, der hat Zähne
Und die trägt er im Gesicht
Und MacHeath, der hat ein Messer
Doch das Messer sieht man nicht

Diferentemente, o texto de Rammstein não se refere diretamente a algum criminoso e, no contexto geral do álbum – o amor é para todos aí – parece apontar para a velha fórmula “os brutos também amam”:

Und der Haifisch, der hat Tränen
Und die laufen vom Gesicht
Doch der Haifisch lebt im Wasser
so die Tränen sieht man nicht

Tubarões também amam. E choram, mas suas lágrimas  (Tränen) não são vistas, porque vive de baixo d’água – e suas lágrimas é que salgam o mar:

Und so kommt es dass das Wasser
in den Meeren salzig ist

Além do mais, ambos os textos mantêm versos heptassílabos como padrão métrico.

Assim, não é à toa que em minha biblioteca de música Chico Buarque e Rammstein cantam sempre no mesmo palco. Um artista que se preocupa em conferir sentido ao que produz merece ser ouvido, visto, sentido etc. etc.

sábado, 27 de novembro de 2010

Afinal, o que querem as mulheres?

Apesar do horário, estou me divertindo com a minissérie global Afinal, o que querem as mulheres?. A quebra do ritmo linear da história, o figurino, a metalinguagem, as cores fortes, a poesia na fala dos personagens, tudo muito interessantemente combinado para narrar a repercussão de uma tese de doutorado em psicologia. E também abertura não poderia deixar de chamar a atenção: a colagem de recortes de pinturas e fotos e, em especial, a letra da música de abertura, que ricamente abusa da composição por aglutinação e dá forma a cômicos neologismos e uma profusão de mulheres e desejos eróticos que elas suscitam.

Observanessa, perceberenice, arriscamila,
Embromárcia, aproximargareth,
Conversarah, envolverônica, submetereza

Sentirene, conquistarlete, mescláudia,
Lambeatriz, abraçabrina,
Mordenise, amaria, beijanaína

Ligou o nome à pessoa, perdoa, pessoa...

Agradesimone, esclareceleste, buscarmen,
Surtatiana, pensophia
Vacilaura, enciumonique, engolívia

Desejanice, agarraquel, roubárbara,
Ligabriela, esquecelina
Provocarla, concordana, suplicarolina

Ligou o nome à pessoa, perdoa, pessoa...

O uso estilístico da composição como processo de formação de palavras escolhido pelo autor da música aproxima uma determinada mulher de uma determinada ação. A composição por aglutinação vai além: a mulher e a ação se fundem, se misturam, uma é a outra, uma qualifica a outra. O refrão, em tom ambíguo, ao mesmo tempo que reforça essa ligação física mulher-ato, deixa transparecer a tentativa do eu-lírico de falar com "meias palavras" (literal e metafóricamente) a respeito de seus desejos e das mulheres que lhos provocam.

domingo, 21 de novembro de 2010

Sartre explica

Assisti ontem ao documentário Chico Buarque – Vai Passar. Sou louco por Chico. Amo aquelas músicas que cantam a alma feminina.

E ouvir um artista falar de sua própria obra é sempre revelador e, por vezes, desconcertante, pelo menos para os estudiosos da sua obra. No referido documentário, Chico, entre outras coisas, afirma que Apesar de você não foi endereçada a Emílio Garrastazu Médici, presidente do Brasil entre 1969 e 1974; e, respondendo ao questionamento de um estudante, nega que sua obra musical seja cronologicamente divisível em poética e engajada.

A partir de considerações como estas, um sem-número de teorias e estudos perdem seu fundamento, mas não sua legitimidade enquanto possibilidade de interpretação, pois, como sustenta Sartre, em O que é literatura, o objeto literário, segundo Sartre, é como um pião que somente existe enquanto em movimento.

Explico-me. Segundo Sartre, o autor não escreve para si mesmo (o que seria o pior fracasso), mas para os outros. Ao leitor, que deve ser distinto do autor, visto que o ato da leitura implica expectativa, cabe a missão de completar o projeto empreendido pelo autor em sua obra: transformar o mundo e assegurar a liberdade (de existir).

Ora, autor e leitores têm suas próprias experiências de vida (Erlebnis, em termo heideggeriano), o que implica expectativas – que se confirmam ou se refutam – e tomadas de posição dos leitores em relação à obra que leem.

Assim, aceitando-se o fato de que o sentido não é imanente à obra, mas uma relação construída entre autor e leitores e todas as implicações históricas, sociais, culturais etc. etc., pode-se legitimamente relacionar Apesar de você a Médici e, pelo menos, didaticamente, dividir a obra buarquiana segundo critérios poéticos e críticos.